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Chris Ann ([info]chris_ann_w) wrote in [info]potterslashfics,
@ 2008-01-05 17:08:00

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Current mood: cheerful
Current music:Jolin Tsai - Mr. Q
Entry tags:draco*ron, mpreg, slash

Amor é um jogo de azar (capítulo 6)
Título: Amor é um jogo de azar
Autora: Chris Ann
Classificação: PG-13 - Humor/Romance/Drama - yaoi
Ship: Ron/Draco, Harry/Draco, Ron/Hermione
Resumo: Sobre um herói desaparecido, um puro-sangue falido, um presente biológico e o melhor amigo com problemas com bebida que acaba tendo que cuidar de tudo.
Avisos: Mpreg!
Disclaimer: Tudo pertence à J.K. Eu só brinco com os personagens \o\
Nota1: Para todo mundo que foi infernizado com um "o que é que você acha?" enquanto eu escrevia a fic, e para Beatriz, que impediu a bichinha de ir para o limbo.
Nota2: Desconsidera HP7. Ou pelo menos o epílogo u_u'

Capítulo 6



Draco estava contente. Naquele momento, havia poucas coisas na sua cabeça. Uma delas era o pacote de biscoitos que ele estava acabando naquele momento. Outra era a noção de que estava ocorrendo uma batalha entre os bebês. Fez uma careta de dor quando um dos chutes atingiu em cheio uma de suas costelas. Passou a mão na barriga para tentar dissuadi-los, mas não adiantou nada. Um dos dois, pensou Draco, ainda assim com bom-humor, estava levando uma bela surra.

A outra coisa era Weasley. Draco queria que ele chegasse logo. Estava entediado demais. Mesmo que ele precisasse de cada vez mais criatividade para que eles pudessem fazer algo, era sempre possível de um jeito ou de outro.

Sua mente variava entre esses três tópicos quando ele viu Weasley chegando pela lareira. Depois de controlar um louco impulso de pular no pescoço dele e beijá-lo – isso era coisa de garotinhas apaixonadas com saudade do namoradinho – ele continuou sentado no sofá, observando-o sacudir as cinzas das vestes e se preparando para dizer algo adequado, quando Weasley o olhou e Draco percebeu que tinha algo errado, muito errado. Ele estava claramente transtornado e parecia com ódio... dele.

Draco prendeu a respiração e, pela primeira vez na vida, decidiu que o melhor ataque era a defesa.

“Por que” – começou Weasley, tirando a capa e jogando no sofá, com o tom de voz muito lento das pessoas prestes a explodir – “você mentiu para mim, Malfoy? Não, eu sei porque você mentiu. Você é um crápula, um nojento, um filho da puta, um...”

“Não ouse falar da minha mãe!” – exclamou Draco, ofendido, levantando-se.

“... aproveitador, um chantagista. Mas porque você me acha tão idiota, tão... estúpido, se...”

“Weasley, cala a boca. Você bebeu?”

“Não” – disse ele, contornando a mesinha de centro para ficar de frente para Draco – “nunca estive tão sóbrio.”

Ao ver a expressão no rosto de Weasley, Draco teve medo de acabar agredido, ou pior. Recuou.

“Então o que você está falando?”

Pronto, atingira o ponto de fissura.

“Você sabe muito bem do que eu estou falando, sua cobra!”

“Não, eu não sei, idiota!”

Ron acabou com a distância que separava e puxou Draco bruscamente pelos braços.

“Me solta, seu...”

“Os gêmeos são meus filhos! Não de Harry, e você sabe!”

Silêncio. Draco encarou Weasley. Em qualquer outra situação, ele teria desatado a rir diante de uma afirmação dessas, mas Weasley estava falando assustadoramente sério.

“Você está louco.”

“Se eu estou, Hermione também está. Ela nos viu juntos no dia do Natal.”

Aquilo não estava acontecendo. Não, não estava. Não, não, não.

“Weasley, você está...”

“Não estou! E você sabe muito bem que eu não estou porque, seu nojento, você sabe de tudo isso e estava armando para cima de mim!”

Pela dor, os braços já deviam estar roxos. Draco tentou se soltar, se sentindo horrivelmente indefeso, mas os dedos dele não se moveram um centímetro na sua pele.

“Eu não estava armando para cima de você! Eu nem sei do que você está falando!”

“Mentiroso! Eu devia...”

“O quê, bater em mim?”

No momento que disse isso, Draco se arrependeu. Pela expressão de Weasley, ele estava considerando fazer isso mesmo. Ele ainda o segurou por um bom tempo, cravando as unhas na sua pele desprotegida pela camisa, antes de largá-lo no sofá, onde Draco ficou tentando se recuperar, a respiração acelerada, os braços doloridos e pontadas estranhas na barriga, enquanto Weasley andava de um lado para o outro, de olhos fixos nele.

“Eu” – começou ele, quando conseguiu falar – “não estou...”

“PÁRA-DE-MENTIR!”

“EU NÃO ESTOU MENTINDO! NÃO FAÇO IDÉIA DO QUE VOCÊ ES...”

Outra pontada, mais aguda e forte, o atingiu, fazendo com ele se dobrasse para agüentar a dor, começando a entrar em pânico. Mas alguma coisa do que ele fez – talvez o grasnido de dor involuntário – fez Weasley parar o ataque. Ele ficou parado perto dele, olhando enquanto Draco enquanto ele voltava a posição inicial.

“Eu não estou mentindo” – disse ele, ciente do tom de súplica que sua voz adotara, olhando nos olhos de Weasley – “Acredita em mim.”

Depois do que lhe pareceram longos minutos intermináveis de contato visual, Weasley desviou o olhar e sentou-se no sofá, um pouco longe dele. Ele acreditara.

“Você está com dor?” – perguntou ele, alguns minutos depois, receoso, com um quê de remorso.

“Não mais” – respondeu Draco, ainda em posição de defesa, as duas mãos protegendo a barriga – “Agora, me explica essa merda que você gritou.”

Weasley engoliu em seco e fixou o olhar na parede.

“É isso que você ouviu. Eu encontrei Hermione hoje e ela me disse que... bem, que nós tínhamos nos esfregado como animais no cio, foi a expressão dela. Na festa de Natal dos meus irmãos.”

Draco deixou a cabeça cair na cabeceira do sofá, mal acreditando.

“Não. Eu transei com Potter naquela noite.”

“Você lembra? Tem certeza?”

Draco tentou. Lembrava de achar Potter, mas, depois, a próxima lembrança era dele acordando na manhã seguinte. E encontrando Weasley desmaiado no corredor.

“Não” – confessou ele, aborrecido – “Não tenho.”

“Eu lembro.”

Weasley virara a cabeça para ele. Estava totalmente pálido.

“E porque você não me disse nada?” – perguntou Draco, com um início de fúria.

“Porque eu achei que fosse um sonho! Você não tinha barriga.”

“Nós estávamos transando?”

“Não exatamente” – respondeu Weasley, corando de leve – “Você estava fazendo umas... ahn... coisas lá em baixo.”

Draco suspirou. O vocabulário limitado de Weasley em relação à sexo às vezes era cansativo.

“Então” – prosseguiu Weasley, mais animado – “nós não transamos de verdade, não? Então, eu não posso ser o pai!”

“Lamento decepcioná-lo, Weasley” – respondeu Draco, em tom fúnebre, lembrando do seu estado naquela manhã – “mas eu tenho certeza absoluta que transei de verdade, como você diz, naquela festa com alguém. E tudo indica que foi você.”

Weasley murchou e afundou no sofá.

“Tem alguma chance de não ser eu?” – perguntou ele, desesperançoso.

Draco se sentiu com a moral mais baixa do que nunca. A única coisa que ele tivera certeza naquele tempo todo, a paternidade dos gêmeos, acabara de se desintegrar na sua frente.

“Pode ter sido Potter, uma semana antes.”

“Então minhas chances são...”

“Metade para você, metade para ele.”

Weasley não respondeu, absorvido em pensamentos, e Draco não tinha a menor intenção de romper o silêncio. Ficaram sentados em silêncio por um longo tempo, Weasley eventualmente olhando as marcas roxas e vermelhas nos seus braços.

“Desculpa por isso” – murmurou ele, apontando as feridas – “Pelas outras coisas também. Eu estava... louco.”

Mas Draco não estava ligando para isso. Estava com a cabeça em outra coisa.

“Eu queria saber como, de todas as pessoas daquela festa, eu fiquei com você.”

“Eu acho” – começou Weasley, cauteloso com a reação de Draco – “que você brigou com Harry e decidiu traí-lo com a primeira pessoa que passasse na sua frente... e fui eu.”

Draco deu os ombros. Era provável que fosse aquilo mesmo, mas ele não tinha energia para pensar naquilo agora. Era outra coisa que ele queria saber.

“Eu quero saber como. Seduzir você deve ter sido difícil, até porque eu ainda era o... namorado de Potter e você estava com Granger.”

Weasley baixou os olhos para o próprio colo, evidentemente não querendo muito discutir aquela parte.

“Então, Weasley...”

“Eu não sei! Talvez você deve ter mandado a mesma conversa, que nós íamos só relaxar e aliviar tensões, ou algo assim, e também deve ter dito que o Harry e Hermione jamais descobririam, e depois deve ter me atacado e me jogado num quarto ou sei lá. Eu não lembro de muita coisa a mais que você, Malfoy, estou só supondo.”

“Certo. E...”

“O quê?”

“Quando você falou que eu estava armando, o que queria dizer?”

Se antes Weasley corara de leve, agora virara um pimentão.

“Eu achei que você soubesse de tudo e tivesse fingido para ficar aqui, e, se o Harry voltasse, você...”

Draco fez um gesto com a mão mandando parar. Já ouvira o suficiente para perceber que a idéia era idiota.

“E porque você estava no corredor no dia seguinte?”

Era incrível como Weasley conseguia ficar mais vermelho quando Draco considerava tal feito impossível.

“Eu não sei! Você deve ter me expulsado para ter mais espaço na cama, ou... eu sei lá, Draco.”

Talvez tivesse sido aquilo mesmo, pensou ele, se ajeitando no sofá, mas não tinha um fiapo de lembrança. Estava com o humor tão transtornado com aquilo tudo que sequer percebeu que Weasley o chamara pelo primeiro nome, ou que ele se levantara do sofá e o deixara sozinho.

Maldito fosse o álcool.

Pelos barulhos de garrafas de vidro se espatifando contra a parede da cozinha, minutos depois, Weasley devia concordar com ele.


~~*~~


Na manhã seguinte, Draco ainda não conseguia acreditar o que estava acontecendo com ele. Era como se os acontecimentos da noite anterior fossem partes de um sonho surreal do qual ele ainda não acordara. Às vezes, tudo parecia fazer sentido. Se os bebês fossem de Weasley, era justiça poética que ele acabasse sendo com quem Draco recorresse na hora que precisou, e o envolvimento rápido deles parecia adequado – afinal, eles já haviam feito aquilo antes. Outras vezes, a idéia era tão revoltante que Draco tinha vontade de gritar de raiva. Se fossem de Weasley, ele tinha duas opções: ou fugia, deixando os bebês para trás, ou moraria com ele – talvez até casasse – e teria uma vida pobre e frustrante. Sim, porque nenhum fogo na cama sobreviveria depois de dois filhos pequenos. Aquela idéia de existência era tão terrível para ele que ele mudou o foco dos pensamentos para algo mais prático. Por exemplo, que o fato de eles terem ido para a cama explicava algumas coisas estranhas que haviam acontecido: porque Granger o evitava e também...

“Draco.”

Ele levantou o olhar do chão e observou enquanto um pálido e mal-dormido Weasley sentava ao seu lado no sofá.

“Bom dia para você também.”

“Draco” – repetiu ele, virando a cabeça para olhá-lo melhor – “Eu pensei durante a noite. Você acha que Harry...?”

Não teve coragem de terminar a pergunta e ficou olhando para ele, praticamente implorando que ele dissesse não.

“Com certeza.” – respondeu Draco, olhando Weasley murchar – “É típico de Potter, fugir heroicamente para não assassinar o amante e o melhor amigo na cama.”

“Ah, cala a boca.”

“É a única explicação para o sumiço dele.”

“Eu já mandei calar a boca!”

“Mas você sabe que é verdade.”

Weasley não respondeu. O pensamento que seu santo amigo tivesse tido vontade de matá-lo devia assustá-lo, mas Draco conseguia imaginar isso perfeitamente. Nunca acreditara realmente que o feitiço que quase o matara quando eles haviam duelado no banheiro da Murta-Que-Geme, no sexto ano, tivesse sido acidente, por mais que Potter insistisse. Talvez, porque não, ele estivera a ponto de matá-los na noite de Natal, e pura sorte os salvara.

Ou puro azar, pensou ele com azedume, quando um dos gêmeos chutou sua costela com especial vontade.

~~*~~


O mês de julho passou devagar. Como nos primeiros dias ali, Draco voltou a ficar morto de tédio, mas agora por outros motivos. À medida que o sétimo mês avançava, suas dores nas costas e nos pés, além do seu mau humor, pioraram, impedindo-o de fazer quase qualquer coisa. Para piorar sua tragédia, transar com Weasley se mostrava cada vez mais difícil com o passar dos dias e, finalmente, impossível. Weasley, aliás, se mostrava cada dia mais intratável. Por mais que negasse, era óbvio para Draco que, desde que descobrira a possibilidade dos bebês serem dele, se preocupava mais com a sua saúde, andando atrás dele pela casa e perguntando a cada dez minutos se ele estava com alguma dor. Depois de cinco respostas atravessadas e um ataque histérico, ele desistiu de perguntar, mas continuou eventualmente seguindo Draco pela casa quando achava que ele estava distraído o suficiente para não notar, a ponto de Draco ficar felicíssimo quando se encontrava sozinho no apartamento.

A questão da paternidade dos bebês virou uma obsessão. Draco sabia que não podia saber ou fazer nada até as crianças nascerem, mas não deixou de pensar sobre as vantagens de cada pai. Percebeu que o melhor negócio para ele era, sem dúvida, Potter, mas a probabilidade de ser Weasley era perigosamente alta, principalmente tendo em vista as taxas alarmantes de procriação da família. Weasley tinha uma única vantagem: se fossem dele, os bebês seriam considerados puro-sangues sem muito esforço. Se fossem de Potter, nenhuma forma para burlar os feitiços da árvore genealógica dos Malfoy serviria para estabelecê-los como herdeiros das família, e provavelmente a linhagem terminaria em Draco. Por outro lado, se fossem de Potter, as finanças e a sobrevivência dele estariam garantidas. Mas, para reconhecer as crianças, se fossem dele, Potter precisaria retornar à Inglaterra. E Draco não tinha muita certeza se queria que isso acontecesse.

Ele não falou sobre nada disso para Weasley. As relações dos dois não melhorariam em nada se Draco dissesse que estava torcendo para os bebês serem de Potter, então, ele se manteve calado sobre esse assunto. Weasley entendeu o voto de silêncio e também não puxou o assunto durante todo o mês.

Ou quase.

“Eu não acho que o Harry vá voltar.” – disse ele de repente numa noite, quando eles já estavam deitados para dormir.

Draco, que estava muito sonolento desde o início do último trimestre da gestação, virou a cabeça para olhá-lo melhor.

“Eu acho bom que volte, se os bebês forem dele.”

Ron, que andava dormindo sem camisa para a tortura mental de Draco, hesitou um segundo antes de falar novamente.

“Você quer que sejam dele, não quer?”

“Seria melhor para a minha sobrevivência.”

“Você acha que eu deixaria você morrer de fome?”

“Não” – respondeu Draco, começando a ficar sem paciência – “Mas, convenhamos, você não tem dinheiro para pagar as contas, só comigo aqui. Não gostaria de imaginar o que aconteceria com mais duas crianças. Potter é um melhor negócio.”

Weasley pareceu zangado.

“É assim que você vê as coisas, Malfoy? Os bebês são um negócio para você?”

“Não! Weasley, é por isso que eu falo que Potter seria melhor. Se você é incapaz de entender uma simples metáfora, eu imagino que teria um futuro negro com você.”

“Você acha que eu sou estúpido?”

“Na maior parte das vezes, eu não acho, você é.” – disse Draco, cansado, e virou a cabeça para o outro lado para dormir – “Weasley, eu estou com dor, impossibilitado de transar e muito cansado. Me deixa em paz, eu preciso dormir.”

Houve um silêncio de alguns segundos, e Draco achou por instantes abençoados que tivesse sido deixado em paz.

“Draco?”

Ele não se deu ao trabalho de virar a cabeça de novo.

“O quê?”

“Se você não pode transar, porque está dormindo na minha cama?”

Draco virou a cabeça para o lado onde Weasley estava, pensando ter ouvido um tom de malícia na voz.

“Porque a sua cama é confortável, oras.”

“Não. A do quarto de hóspedes é tão boa quanto essa, e você poderia dormir sozinho, não?”

Era uma sorte estar escuro, pensou Draco, sentindo o rosto esquentar.

“Você gosta de dormir comigo, não é?” – caçoou Weasley, dando risadinhas zombeteiras.

“Não. Na verdade, você me sufoca durante a noite.”

“Men-ti-ra” – cantarolou ele – “É feio mentir, Draco.”

“Ron, porque alguém em sã consciência gostaria de dormir com você? Você ronca.”

“Não! Você está mentindo de novo.”

“Francamente, isso é uma discussão estúpida. Vou... o que você está fazendo?”

Ele se aproximara de Draco e passara um braço por cima da barriga dele, puxando-o para mais perto dele.

“Eu já disse que odeio quando...”

“Você me chamou de Ron” – disse ele, o rosto curiosamente sério na penumbra.

Oficialmente, o rosto de Draco estava pegando fogo agora.

“Como?”

“Você me chamou de Ron.” – repetiu ele.

“E daí? Você me chama de Draco há semanas.”

“É diferente” – murmurou Ron, passando os dedos na barriga dele – “Você sabe.”

Draco ficou calado. Não confiava no que podia dizer. Tinha bastante consciência de que o seu coração estava acelerando perigosamente, parecendo ecoar no silêncio que se impôs. Ron enterrou o rosto na curva do pescoço dele e sua respiração estava quente e irregular contra sua pele, enquanto Draco temia pelo segundo que algo perigoso pudesse ser dito. Quando o abraço se afrouxou, Draco empurrou o adormecido Ron para longe, tentando se convencer que aquela sensação era toda alívio por nada que complicasse ainda mais aquela situação tivesse sido dito por nenhum dos dois.

Pena que ele mesmo já não estava acreditando.


~~*~~


Quando Ron chegou e começou a pular e rodopiar pela sala, Draco achou que ele estava bêbado. Ou drogado. Ou ambos. Depois que percebeu que ele só estava feliz.

“Estou de férias!” – exclamou ele, dando socos no ar – “Férias!”

Draco rolou os olhos e voltou a ler sua revista. Ele não suportava felicidade excessiva, principalmente quando estava com dores nos pés e mal-humorado.

Para piorar, Ron arrancou a revista das mãos dele.

“Estou de férias! Você devia estar contente.”

“Não, não devia. Eu vou continuar tendo dores com você aqui ou não.”

“Nos pés?”

“Exatamente. Agora devolve minha revista.”

Ele devolveu, antes de tirar a capa e os sapatos e sentar no sofá.

“Não sei se você notou” – disse Draco, irritado, chutando-o para sair – “mas eu estou deitado e quero me esti... o que você está fazendo?”

“O que parece que eu estou fazendo?” – perguntou Ron, depois de tirar uma das meias de Draco e jogá-la distraidamente para trás, e trabalhando na segunda – “Você está com dor. Vou massagear seus pés.”

Espantado, Draco ficou pensando no que falar diante daquela situação insólita, enquanto observava sua segunda meia sair voando.

“Atencioso de sua parte.”

“Eu sei.”

“Você bebeu?”

“Não.” – respondeu ele, enquanto observava os pés de Draco – “Por que?”

“Só dessa forma para você fazer tamanha gentileza.”

“Eu sou gentil!”

“Claro, como um hipogrifo enlou... droga, olha onde você aperta!”

“Desculpe. Mas eu sou gentil. Você é quem maltrata os outros.”

“Só trato as pessoas como elas merecem” – respondeu ele, desistindo de ler a revista e deixando-a cair para o chão – “E isso que você está fazendo não é tão ruim assim.”

“Não é tão ruim assim?” – disse Ron com tom de voz magoado, mas, mesmo com os olhos fechados, Draco teve certeza que ele estava sorrindo – “Você parece um gato ronronando. E está rindo, estou vendo!”

“Pensei que eu fosse uma cobra, não um gato” – murmurou Draco – “Esquerda, esquerda, isso.”

“Não nesse momento.” – disse Ron, brincando com os dedos do pé dele – “Você precisa ver sua cara. Até parece que ninguém fez isso para você na vida.”

“De fato, não.”

Ron deixou cair o pé. Draco abriu os olhos.

“Por que parou?”

“Ninguém nunca fez?” – perguntou ele, parecendo um pouco chocado.

“Não. Qual é o problema?”

“Nenhum. Só achei que...”

“Ah, já sei. Que seu carinhoso amigo já tivesse feito isso. Não, lamento informar que ele nunca o fez.”

Ron ficou parado por alguns instantes olhando para ele, como se não acreditasse, e depois sentou no sofá, pensativo. Draco esticou as pernas e colocou os pés sobre o colo dele, esperando que ele continuasse a massagem. O que não aconteceu. Cutucou-o com o pé, esperançoso, mas ele nada fez.

“Ele era melhor do que eu?” – perguntou Ron de repente.

“Onde?” – perguntou Draco, mas compreendeu quando ele começou a corar – “Entendo. Está competitivo você, agora.”

“Talvez” – murmurou ele, corando mais um pouco – “Estou convivendo há muito tempo com você.”

“Por Merlin, pára de corar.” – disse Draco, sentando-se para poder poder olhá-lo melhor, ainda com os pés apoiados no colo dele – “Até parece que você é virgem.”

“Cala a boca! E você ainda não respondeu.”

Draco ficou alguns momentos ponderando antes de decidir. Podia se recusar a dizer qualquer coisa e se arriscar a ouvir reclamações o resto da noite, além de ficar sem massagem, ou podia contar logo e ter alguma esperança de alívio para seus pés doloridos.

Não foi difícil escolher.

“Se quer tanto saber” – começou ele – “Potter era...”

A luz verde da lareira iluminou a sala, ao mesmo tempo em que alguém tropeçava na mesinha com tamanho estrépito que cortou a frase. Quando a pessoa se endireitou, xingando baixinho, Draco esqueceu totalmente o que ia falar. Ouviu alguém engasgando ao seu lado pouco antes de Ron empurrar suas pernas e se levantar.

Potter não estava feliz. Isso ficou claro desde o início, mas sua expressão ficou ainda pior à medida que seu olhar passava de Ron para ele. Mas quando seu olhar foi atraído para baixo, seu rosto mudou de expressão tão rápido que Draco teria achado engraçado, se não estivesse com a mente destituída de qualquer pensamento racional. Mas, de alguma forma, ele conseguiu prever o que aconteceria antes que Potter, depois de alguns segundos com os olhos fixados na sua barriga, rolou os olhos e desmaiou, seu corpo fazendo um baque considerável quando bateu no chão.

Draco respirou fundo várias vezes para tentar recuperar sua saúde mental. Depois, olhou para Ron, que estava observando o corpo caído, sem ação.

“Nós estamos” - disse ele depois de vários segundos, virando a cabeça e encarando-o, atônito - “tão ferrados.”

Pela primeira vez na vida, os dois concordavam plenamente.

~~*~~


De forma geral, o mundo se divide em dois tipos de pessoas: aqueles que, ao flagrar uma traição, matam os dois amantes no ato, sem hesitação e sem culpa, e aqueles que podem matar ou não, mas, antes, ficam um longo tempo observando a ação, incapazes de acreditar naquilo ou fazer qualquer coisa.

Harry Potter pertencia, sem dúvidas, à segunda categoria. Ele se lembraria até o dia da sua morte na paralisia que tomou seu corpo e na impotência que sentiu ao pegar o namorado e o melhor amigo juntos na cama. Ele não pôde sequer fingir que estava tendo alucinações por causa do álcool, já que os gemidos eram altos demais para serem ignorados. Feliz Natal. Que piada. Olhando pela fresta da porta aberta, um ódio corrosivo foi crescendo dentro dele e o seu eu selvagem quis matar. Quis entrar ali e cometer dois assassinatos tão rápido que eles não teriam a noção de terem sido pegos. Ele queria, mas não conseguia. Ficou congelado no mesmo lugar, vendo e ouvindo tudo, até que não suportou mais, deu meia volta para o corredor, saiu correndo pela porta da rua e aparatou para qualquer lugar longe dali. Sabia que se permanecesse mais um segundo, o seu eu homicida iria ganhar a parada e ele não queria isso. Apesar da traição, Ron ainda era seu melhor amigo de oito anos, e Draco...

A pior coisa daquilo tudo foi descobrir que realmente gostava do desgraçado, e fez ser ainda mais doloroso. Se ficasse ali, ele não suportaria, ou se descontrolaria. Assim, ele fez as malas, foi ao Ministério e pegou a primeira chave de portal para o exterior, não se importando com o destino. Só queria ficar longe.

Nos meses seguintes, ele se escondeu e se disfarçou enquanto viajava. À medida que os meses passavam, duas coisas ficavam claras na sua mente: uma, que ele não poderia fugir para sempre. Mais de uma vez ficou às beiras de ser reconhecido, apesar dos disfarces. Além disso, ele não podia fugir daquele assunto para sempre, o que levava ao segundo ponto: devia ter uma explicação. Não para Draco, aceitou ele, depois de certa resistência: eles não estavam juntos, ele estava furioso depois que brigaram na festa de Natal e trair era uma forma bem dele de se vingar, ainda mais bêbado como ele estava. Mas, para Ron, era quase inacreditável. Quase, porque ele vira. Quanto mais pensava, mais tinha certeza de que devia ser o álcool e a conversa maldosa de Draco; Ron nunca o trairia dessa forma consciente.

Estava na Romênia quando finalmente decidiu voltar. Até mesmo traçou um plano de ação; primeiro, falaria com Ron, que deveria estar com a consciência pesada acumulada por meses, e estaria disposto e restabelecer as relações – disposto porque ele ainda não tinha certeza se conseguiria perdoar Ron quando estivessem cara a cara. Depois, procuraria Draco, eles discutiriam, se xingariam e colocariam tudo às claras e, talvez, numa possibilidade tão esperançosa que Harry não ousava nem pensar, talvez eles voltariam a ficar juntos. Então, ele foi ao Ministério romeno e pegou a chave de portal para a Inglaterra, passando na sua casa para deixar as malas antes de ir para o apartamento de Ron, sentindo crescer, à medida que a hora do reencontro se aproximava, o rancor que estava acumulado há meses. Mas, pensou, ele superaria isso. Ron devia estar arrependido do que fizera.

Isso foi antes de chegar no apartamento e encontrar ele e Draco juntos no sofá. Ele sentiu todas as idéias e ilusões mentais que ele tinha sobre aquela volta desmoronarem uma por uma dentro de sua cabeça, enquanto observava Ron engasgar e levantar correndo. Depois, ele olhou para Draco, que parecia tão chocado que sequer o xingara, como ele imaginava que seria. Então, ele desviou o olhar dele, e foi quando viu.

Ele congelou. Seu cérebro ficou ausente de pensamentos racionais, deixando espaço para um específico se desenvolver: se aquilo era o que ele pensava que era, então...

E ele desmaiou.


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